Encontro em Samatra
Ontem chovia a cântaros e o vento ameaçava destruir tudo quando vinha no caminho para casa. Sentia o coração apertado e mais ainda ficou quando o telemóvel tocou àquelas horas pouco habituais de receber um telefonema dele. Atendi e logo confirmei a minha inquietação:
- Mãe, aconteceu uma coisa horrível...
Ainda pensei que se tratasse de um fracasso na apresentação do projecto, ou talvez mais um daqueles desesperos amorosos que o tinham deixado arrasado semanas atrás. Aos vinte tudo o que nos acontece, zangas, traições, insucessos, adquire a dimensão fulminante de uma tragédia. Infelizmente era mesmo uma tragédia.
-Morreu um amigo meu do Erasmus, um francês...foi encontrado morto, hoje, com a carteira e o telemóvel...Oh, mãe, ainda ontem à noite estivemos a conversar até tarde na faculdade, partilhámos ideias, eu emprestei-lhe material para a maqueta...depois ele foi a uma festa, eu fiquei porque queria adiantar trabalho para descansar no fim-de-semana...
Não sabia como consolá-lo, mas lá fui dizendo entre espaços de silêncio cúmplice:
-Eu compreendo, é terrível, mas é importante que façam a autópsia para compreender o que se passou...Sei que é difícil... conversem uns com os outros, é importante estarem juntos neste momento.
-Ainda ontem ele estava vivo, aqui, a rir, cheio de projectos. E, hoje, foi insuportável ver a maqueta dele (interessantíssima) inacabada sobre a mesa. Não sei se percebes, mas com ele morreu em mim muita coisa...
Compreendo sim...A ilusão da imortalidade, de que a morte é uma ficção que só acontece no écran. Apetece-me contar-te uma história, desde sempre que esta é a minha estratégia para te fazer compreender as coisas, para te sossegar. Já a conheces mas vou lembrar-ta, é de Lorca. É mais ou menos assim:
Em tempos antigos, vivia um senhor muito rico que tinha um criado. Um dia o criado foi ao mercado e cruzou-se com a Morte que o olhou fixamente. O criado correu para casa assustado e disse:
- Meu amo, acabo de ver a Morte no mercado que me olhou fixamente. Ela vem buscar-nos, estou certo. Partamos já para Samatra.
-Fica calmo que eu vou falar com ela.
- Não, meu amo, perdoai-me mas eu parto já para Samatra.
O amo foi ao mercado e encontrando a Morte perguntou-lhe:
- Morte, posso perguntar-te porque assustaste tanto o meu criado?
- Na verdade, eu não pretendi assustá-lo. Fiquei só admirada de o ver aqui, porque ainda hoje tenho um encontro com ele em Samatra.